
Tomando as palavras de um antigo mestre citado por Dogen no Shobogenzo, no capítulo UJI - Ser-Tempo, sobre esse caminhar em que algumas vezes nos movemos pelo topo da mais alta montanha, algumas vezes pelo chão do mais profundo oceano, algumas vezes experimentando a existência no estado de um demônio com três cabeças e oito braços, algumas vezes como um Buda:
Algumas vezes no topo da mais alta montanha (2),
Algumas vezes movendo-se pelo chão do mais profundo oceano (3),
Algumas vezes três cabeças e oito braços (4),
Algumas vezes seis pés ou oito pés (5),
Algumas vezes um bastão de madeira ou um espanador (6),
Algumas vezes uma lanterna de pedra (7)
Algumas vezes o terceiro filho de Chang ou o quarto filho de Lee(8)
Algumas vezes a Terra e o espaço.(9)"
1. Os tradutores consideram essa referência de Dogen uma forma de citar um antigo mestre Yakusan Iguen. As imagens que ele descreve a seguir são possíveis estados mentais que podem ser experimentados por uma mesma pessoa em diferentes momentos do tempo, sem que obedeçam a uma lógica linear.
2. Essa imagem remete ao estado mental de lucidez ou clareza de visão, como a que pode ser experimentada a partir do topo de uma montanha.
3. Essa imagem refere-se ao estado profundo de meditação e silêncio, denominado Samadhi, em que os sentidos são suspensos e corpo e mente repousam em profunda paz e silêncio.
4. Imagem de uma divindade demoníaca, que representa as perturbações causadas pelas paixões e apegos.
5. Imagem do Buda, representando a condição mental do estado de iluminação, a liberação de todo sofrimento e perturbação, estado de serenidade.
6. Objetos utilizados pelos monges durante os rituais, objetos comuns de uso cotidiano que são eles também momentos do tempo. Participam da transmissão dos ensinamentos fazendo parte do ser-tempo da transmissão.
7. O pilar do templo ou a lanterna de pedra, típicas construções budistas, compreendidas como objetos comuns do cotidiano que são eles também tempo. A vida comum é ser-tempo.

