"Estudar o budismo é estudar si mesmo

Estudar si mesmo é esquecer si mesmo

Esquecer si mesmo é estar identificado a todas as coisas

Estar identificado a todas as coisas é abandonar corpo e mente de si e de outros"

Eihei Dōgen (1200-1253)
Asas do Desejo, de Wim Wenders

O Céu sobre a Berlin do pós-guerra vista por Wenders é cheia de anjos gentis, que escutam os pensamentos torturados dos mortais e tentam confortá-los. Um deles, Damiel (Bruno Ganz), deseja se tornar mortal após se apaixonar por uma bela trapezista, Marion (Solveig Dommartin). Peter Falk, como ele mesmo, auxilia a transformação explicando as alegrias simples da experiência humana, como a sublime combinação entre café e cigarros.(Alemanha, 1987)

O Caminho até a iluminação não é linear, não é feito de ganhos, de conquistas, de passos que aumentam na direção de um dado objetivo. Mas está relacionado a um esvaziar-se, a perdas, a passos que avançam e recuam, como escreve Dogen ao falar de "para adiante e para trás" sobre o seguimento do Caminho. Imaginar que avançamos num crescente estado de perfeição em que pensamos a respeito de nós mesmos que estamos cada vez mais corretos, mais virtuosos, mas equilibrados, mais sábios apenas revela a vaidade sempre presente na seara espiritual. A última tentação de Buda após experimentar a iluminação teria sido a idéia de nada contar sobre o que descobriu, supondo que outros não poderiam compreender dado seu estado adormecido, apenas ele teria essa condição. Pequenas conquistas são na verdade desafios, para nosso ego sempre pronto para agarrar-se a qualquer brinquedo. Quando estivermos achando que nos tornamos muito bons, é preciso abandonar isso e novamente buscar o Caminho. Quando estivermos nos achando miseráveis, apenas abandonar isso e buscar o Caminho.


Wim Wenders, diretor do "Buena Vista Social Club" , em 1987 realizou esse filme mostrando anjos que fazem opção por experimentar uma vida humana, por conhecer o amor. Caídos ou não, não importa a perspectiva, tomamos aqui a sugestão no sentido dos movimentos que fazem parte do amadurecer das condições para o despertar.
Tomando as palavras de um antigo mestre citado por Dogen no Shobogenzo, no capítulo UJI - Ser-Tempo, sobre esse caminhar em que algumas vezes nos movemos pelo topo da mais alta montanha, algumas vezes pelo chão do mais profundo oceano, algumas vezes experimentando a existência no estado de um demônio com três cabeças e oito braços, algumas vezes como um Buda:

"Um eterno Buda(1) diz:

Algumas vezes no topo da mais alta montanha (2),
Algumas vezes movendo-se pelo chão do mais profundo oceano (3),
Algumas vezes três cabeças e oito braços (4),
Algumas vezes seis pés ou oito pés (5),
Algumas vezes um bastão de madeira ou um espanador (6),
Algumas vezes uma lanterna de pedra (7)
Algumas vezes o terceiro filho de Chang ou o quarto filho de Lee(8)
Algumas vezes a Terra e o espaço.(9)"



1. Os tradutores consideram essa referência de Dogen uma forma de citar um antigo mestre Yakusan Iguen. As imagens que ele descreve a seguir são possíveis estados mentais que podem ser experimentados por uma mesma pessoa em diferentes momentos do tempo, sem que obedeçam a uma lógica linear.

2. Essa imagem remete ao estado mental de lucidez ou clareza de visão, como a que pode ser experimentada a partir do topo de uma montanha.

3. Essa imagem refere-se ao estado profundo de meditação e silêncio, denominado Samadhi, em que os sentidos são suspensos e corpo e mente repousam em profunda paz e silêncio.

4. Imagem de uma divindade demoníaca, que representa as perturbações causadas pelas paixões e apegos.

5. Imagem do Buda, representando a condição mental do estado de iluminação, a liberação de todo sofrimento e perturbação, estado de serenidade.

6. Objetos utilizados pelos monges durante os rituais, objetos comuns de uso cotidiano que são eles também momentos do tempo. Participam da transmissão dos ensinamentos fazendo parte do ser-tempo da transmissão.

7. O pilar do templo ou a lanterna de pedra, típicas construções budistas, compreendidas como objetos comuns do cotidiano que são eles também tempo. A vida comum é ser-tempo.

8. Uma referência à filiação mundana, que representa o fato de sermos todos pessoas comuns, em meio ao mundo secular, isso entendido não como uma condição permanente, mas como um momento do tempo.

9. A possibilidade de experimentar uma identificação com tudo que existe.