"Estudar o budismo é estudar si mesmo

Estudar si mesmo é esquecer si mesmo

Esquecer si mesmo é estar identificado a todas as coisas

Estar identificado a todas as coisas é abandonar corpo e mente de si e de outros"

Eihei Dōgen (1200-1253)
Mestre Ryotan Igarashi com a Sangha Zen da Bahia 2009

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Avalokitesvara

Kannon é a pronúncia japonesa do nome chinês Kuan-Yin, que é o nome do Bodhisatva chamado Avalokitesvara em sânscrito. Avalokistevara é descrito no Sutra do Lótus como alguém que sempre vem a este mundo para salvar os seres que pedem sua ajuda para se libertarem do sofrimento. Literalmente significa ‘Observador do som’.
A figura do bodhisatva Avalokitesvara é símbolo da compaixão, e Mestre Dogen a entende como representando a força da vida. Podemos encontrar Kannon a qualquer momento em nossas próprias vidas, desde que estejamos atentos para perceber sua presença. Pode ser a chuva que não deixa chegar a tempo aos compromissos e nos faz diminuir nosso ritmo um pouco para perceber a chegada do inverno, pode ser o pedestre que caminha numa rua alagada, onde os carros espirram água ao passar com pressa. Pode ser o carro que buzina insistentemente e desperta nossa paciência. Compreendida assim, essa força nos ensina quando estamos atentos para aprender com ela, e age mesmo quando não temos dela nenhuma consciência, sustentando nossa existência.
Nesse contexto, a compaixão não tem o sentido de piedade ou pena, mas o sentido de uma força que sustenta e oferece a possibilidade de libertação do sofrimento a todos os seres. Podemos não compreender o sentido da compaixão numa determinada situação, porque não corresponde às nossas expectativas, mas isso não quer dizer que ela não esteja presente. A compreensão do Mestre Dogen da figura de Avalokitesvara vai além de uma personificação bondosa como usualmente a entendemos:

“Quem é o Bodhisatva da Compaixão? É como se tudo que pode ser ouvido é o Bodhisatva das
mãos e olhos” (DOGEN,1996,p.215) (1)

A ação do Bodhisatva da Compaixão é entendida por Dogen como o funcionamento do inefável e seu próprio uso. Ele utiliza as palavras do Mestre Dogo que a define como ‘alguém procurando o travesseiro durante a noite’. Alguém procurando o travesseiro durante a noite está meio acordado meio dormindo. Procura no escuro, sem saber direito onde está. Ainda não tocou o travesseiro, nem olha para saber onde se encontra. Nesse momento a mão que procura e o escuro são uma só coisa. Como se pudesse ver com as mãos, procura. Mãos e olhos são uma só coisa. A mente e a realidade objetiva são uma só coisa, ele transmite em seu ensinamento. Assim é a presença de Kannon. As palavras do Mestre Ungan respondem: ‘Eu compreendo, eu compreendo’. Nesse momento a compreensão acerca do bodhisatva da compaixão significa que ele não procura mais por Kannon, mas que Kannon se manifesta no presente. E Dogo pergunta: ‘Como você entende isso?’ (DOGEN, 1996,p.211-212).

• Compreender que Kannon pode se expressar de várias maneiras:
“Kannon expresso pelos Budas como possuindo 84 mil mãos e olhos” (DOGEN,1996,p.213)
• Compreender que Kannon está em todo lugar:
“O Bodhisatva da Grande Compaixão está usando suas ilimitadas e abundantes mãos e
olhos”(DOGEN,1996,p.213)
• Tornar-se uma só realidade, não percebendo mais Kannon em lugar nenhum:
“Ungan diz: O corpo inteiro é mãos e olhos”(DOGEN,1996,p.212)

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1 DOGEN,Eihei – Shobogenzo. Trad. Gudo Nishijima & Chodo Cross.Tokyo – Japan: Ed. Windbell,1996.
(texto extraído dos escritos da monja Ivone Jishô, sobre os estudos do Shobogenzo)